A gente aprendeu a repetir que liberdade é fazer o que quiser, quando quiser, sem dar satisfação para ninguém. "Meu corpo, minhas regras. Minha vida, meus problemas." Parece força. Parece autonomia. Mas, no fundo, essa frase muitas vezes é só um atalho para não encarar a consequência do que a gente escolhe. Porque nenhuma escolha acontece no vazio. Você não existe isolado. Cada decisão sua cria uma onda. O que você bebe, o que você fuma, como você gasta, com quem você se deita, como você fala, o que você posta, a dívida que você assume, a agressividade que você normaliza, o compromisso que você quebra. Tudo isso bate em alguém. No filho que observa, na mãe que se preocupa, no parceiro que tenta te segurar, no amigo que te emprestou, no time do trabalho que conta com você. Autonomia não é o problema. O problema é a autonomia infantil. Aquela que quer o direito, mas recusa o peso. Que quer decidir sozinha, mas quer que os outros arquem com o estrago. E existe uma segunda mentir...
Existe uma liberdade que liberta. E existe uma liberdade que te destrói por dentro enquanto você jura que está no controle.
A gente cresceu ouvindo que ser livre é não dever nada a ninguém. Fazer o que quiser, do jeito que quiser, sem limite, sem conselho, sem ter que explicar. "Meu corpo, minhas regras. Minha vida, meu problema." A frase é bonita. Forte. Parece autonomia. Só que na prática, ela virou desculpa para muita gente não olhar para o estrago que deixa para trás. Porque nenhuma escolha é 100% sua. Você acha que é só seu corpo, mas é a mãe que não dorme te esperando chegar. É o filho que aprende com o que você chama de normal. É o parceiro que tenta te alcançar enquanto você se fecha. É o amigo que te empresta dinheiro, tempo, energia emocional para consertar algo que você disse que era só seu. A gente gosta de falar de direitos. A gente esquece de falar de impacto. Autonomia existe, sim. Você tem o direito de escolher. Mas toda escolha tem uma conta, e essa conta quase nunca fica só na sua mesa. Ela pinga na casa de quem te ama, no trabalho que depende de você, na comunidade que você faz ...